“Prestação de cuidados a netos e suas implicações na Qualidade de Vida dos Avós”

Provision of care for grandchildren and their implications on Quality of Life of Grandparents”

“Cuidar a los nietos y sus implicaciones en la Calidad de Vida de los abuelos”

Orlanda EsperançaI, Manuela LeiteII, Prazeres GonçalvesIII

 

 


I Masters Program in Psychogerontologist, Institute of Health Science/CESPU, Gandra, Portugal

II PhD, Psychology Department, Investigation Unit of Psychology and Health (UniPSA), Investigation Center of Health Science (CICS), Institute of Health Science/CESPU, Gandra, Portugal

III PhD, Science Department, Investigation Unit of Psychology and Health (UniPSA), Investigation Center of Health Science (CICS), Institute of Health Science/CESPU, Gandra, Portugal

 

 

 

Correspondence:

Orlanda Esperança

Rua Central de Vandoma, nº. 269

4585-772 Vandoma – Paredes

E-mail: orlandafesp@hotmail.com

 

Conflict of interest: There is no conflict of interest to report by any of the author

ABSTRACT

OBJECTIVES: The main aim was based on the analysis of the impact of caring for grandchildren on Grandparents’ Quality of Life.

METHODS: Two research protocols were implemented to 300 individuals. The A protocol to the CG (N = 150) and B to NCG (N = 150). Both were composed by the scale of the Quality of Life “WHOQOL-Bref”, and the A contemplated also the quiz “Caregivers Grandparents ”. The sample was collected in the northern region of the country.

RESULTS: The CG show high satisfaction towards the care provided (M = 3.38), a good relationship with the grandchild’s parents (M = 2.60), and Family Functioning (M = 2.54). It is highlighted the Leisure Activities (M = 2.47) for its higher value concerning the tasks of care. Grandparents’ age correlates negatively, poorly and significantly with the Basic Care (p <.001) and Instrumental (p <.001). Grandchildren’s age also correlates statistically in a negative and significant way with Basic Care (p = .001), the Satisfaction with Care (p = .012), and Family Functioning (p = .008). Concerning the QL, the CG show better QL when compared with the NCG, not only totally (p = .001) but also in the following dimensions: Environment (p = .013), Physics (p = .001), Social Relationships (p <.001), Psychological (p = .024). In general, the several dimensions of the WHOQOL-Bref and of the questionnaire Caregivers Grandparents, show positive correlations, and statistically significant with the: Study Support (p = .003), Leisure activities (p <.001), Relationship grandchild’s parents (p = .044), and Family Functioning (p <.001).  In contrast, were verified negative, weak and significant correlations with the Difficulties in Care (p <.001), and with the Health Problems (p <.001), which tend to decrease.

CONCLUSION: Taking care of grandchildren seems to play a positive role in the Caregivers Grandparents’ QL, it gives them a sense of usefulness and continuity.

KEYWORDS: Grandparents, grandchildren, health, quality of life.

RESUMO

OBJETIVOS: O principal objetivo consistiu na análise das repercussões da prestação de cuidados a netos, na Qualidade de Vida dos avós.

MÉTODO: Foram aplicados, dois protocolos de investigação a 300 indivíduos. O protocolo A aos AC (N=150) e o B aos ANC (N= 150). Ambos eram compostos pela escala da Qualidade de Vida “WHOQOL- Bref”, e o A contemplava ainda o questionário “Avós/Avôs Cuidadores”. A amostra foi recolhida na região Norte do país.

RESULTADOS: Os AC apresentam uma elevada Satisfação nos cuidados prestados (M=3.38), um bom Relacionamento com os pais do Neto (M=2.60), e Funcionamento Familiar (M=2.54). Destacam-se as Atividades de Ócio (M=2.47) pelo valor mais elevado nas tarefas de cuidados. A idade dos Avós correlaciona-se de forma negativa, fraca e significativa com os Cuidados Básicos (p<.001) e Instrumentais (p<.001). A idade dos netos também se correlaciona de forma negativa e estatisticamente significativa com os Cuidados Básicos (p=.001), a Satisfação para com os Cuidados (p=.012), e Funcionamento Familiar (p=.008). No que diz respeito à QV, os AC apresentam melhor QV comparativamente com os ANC, quer total (p=.001),  quer nas várias dimensões: Meio Ambiente (p=.013), Física (p=.001), Relações Sociais (p<.001), Psicológica (p=.024). De forma geral, as várias dimensões do WHOQOL- Bref e do questionário Avós/Avôs Cuidadores, demonstram correlações positivas, e estatisticamente significativas com: Apoio no Estudo (p=.003), Atividades de Ócio (p<.001), Relacionamento Pais do neto (p=.044), e Funcionamento Familiar (p<.001). Por oposição, constataram-se correlações negativas, fracas e significativas com as Dificuldades nos Cuidados (p<.001), e com os Problemas de Saúde (p<.001), na medida em que tendem a diminuir.

CONCLUSÃO: A prestação de cuidados a netos parece desempenhar um papel positivo na QV dos avós cuidadores, proporciona-lhes um sentimento de utilidade e continuidade

PALAVRAS-CHAVE: Avós, netos, cuidados, qualidade de vida.

Introdução:

Os progressos alcançados pelo desenvolvimento em geral, e pelas ciências da saúde em particular, são os responsáveis pelas atuais tendências demográficas. Nas últimas décadas, o aumento da esperança de vida, associada a uma diminuição da taxa de natalidade, tem conduzido ao envelhecimento da população (DGS, 2006).

Com o aumento significativo da esperança média de vida, é cada vez mais comum a coexistência de várias gerações de uma mesma família, pais, filhos, avós e até mesmo famílias onde há bisavós (Castiello, Villarejo & Truchado, 2007). Desta forma, as oportunidades de interação e manutenção da relação avós netos [RAN] aumentaram (Triadó, Martinez & Villar, 2000). Tal como nos referem Dias, Costa e Rangel (2005): «…a maior expetativa de vida do ser humano tornou possível a convivência entre avós e netos por um longo período, o que não ocorria há algumas décadas atrás. Existe, inclusive, a possibilidade da convivência com a quarta geração, a dos bisavós…» ( p. 159).

A vivência dos avós enquanto tema de investigação, emergiu na década 40 e 50, aumentando consideravelmente na década 80 (Smith, 1991). Segundo Gratton e Haber (1996), este interesse deve-se: ao aumento da esperança média de vida, ás novas estruturas familiares, à participação da mulher no mercado de trabalho, que levam à necessidade de encontrar espaços de supervisão para os seus filhos, sendo os avós uma das alternativas possíveis (Dias & Silva, 1999). Estes fatores, conduziram a alterações nas estruturas familiares, através da verticalização familiar, possibilitando a convivência de mais gerações num mesmo ambiente e espaço (Triadó, 2005), repercutindo-se no envolvimento e participação dos avós na vida familiar (Dias, Costa, & Rangel, 2005), e nas relações entre avós, pais e netos nas situações de cuidado e educação das crianças (Dias, Hora, & Aguiar, 2010).

Por sua vez, estas mudanças conduziram a transformações profundas na forma como se vê o papel dos avós, sentindo-se a necessidade de redefinir e reajustar, os diversos papéis no seio da família (Osuna, 2006). Nunca os avós foram tão jovens e ativos, encontrando-se muitas das vezes ainda integrados no mercado de trabalho, acarretando uma sobreposição de papéis e responsabilidades para estes avós. Estes estão mais presentes na vida dos netos, pela possibilidade de acompanhamento nas várias fases do seu ciclo desenvolvimental, desde o seu nascimento, infância, adolescência, até à idade adulta (Ferland, 2006; Triadó, 2005).

Tornar-se avô/avó, é cada vez mais uma experiência da meia-idade, e não apenas dos mais velhos (Szinovacz, 1998). Isto representa uma transformação na imagem estereotipada dos avós, coligada à idade avançada e saúde precária. Estes deixam de ser vistos como passivos, debilitados e pouco disponíveis, passando a ser considerados elementos ativos (Pinazo, 1999), constituindo uma fonte de produção de bens ou serviços: voluntários como cuidar dos netos e remunerada através de trabalho sénior (Rozario, Morrow & Hinterlong, 2004). Ao cuidar dos netos, permitem maior disponibilidade e otimização do desempenho profissional aos filhos. Para além disso, a sua “jovialidade”, proporciona-lhes um maior contexto relacional (Castro, 1998).

São várias as investigações, que têm salientado duplo contributo dos avós no desenvolvimento dos netos: direto enquanto parceiros interativos, prestadores de cuidados primários e apoio emocional, confidentes, companheiros, transmissores do legado familiar e nacional, fornecedores de estimulação cognitiva e afetiva; e indireto enquanto fontes de apoio social e material aos pais dos netos (Creasey & Koblewski, 1991; Hamm & Milan, 2003; Smith, 1995; Tinsley & Parke, 1987; Tomlin, 1998). São ainda considerados, veículos de transmissão intergeracional de competências parentais (Smith, 1995).

Os papéis assumidos pelos avós, tendem a ser diferentes dos desempenhados pelos pais, geralmente associados à função de educadores (Castro & Ruschel, 1998). Os avós, podem desempenhar um papel mais tolerante, assumindo uma posição única que lhes permite dar amor, conselhos e ser companheiro (Hamm & Milan, 2003). É esta possibilidade de acompanhamento dos netos, isenta de responsabilidades parentais, que torna indubitavelmente o estatuto dos avós tão especial (Ferland, 2006).

Para os avós, os netos são objeto de um amor incomensurável, e fonte de renovação de si mesmos e da família, representando uma oportunidade de fazer tudo o que não se pôde fazer com os próprios filhos (Ferland, 2006). Para além disso, o vínculo com os netos tende a ser idealizado, servindo como uma defesa contra as aflições perante a morte inevitável. É a oportunidade de reparar a própria vida através da imortalidade genética por meio de uma identificação seletiva das qualidades dos netos (Colarusso,1990).

Os avós da contemporaneidade, são mais ativos e saudáveis que os predecessores, assumem novos papéis, muito além de demandas voltadas para o processo de envelhecimento (Sampaio, 2008). Espera-se que sejam os principais agentes socializadores das crianças, precedido dos pais, tendo em consideração que a transformação das mesmas num ser social, constitui uma tarefa familiar (Gomes, 1994). É claro que a proximidade geográfica entre os pais e os avós, facilita este processo (Dias & Silva, 2003).

Além da função socializadora, os avós são fonte de apoio emocional e instrumental (Araújo & Dias, 2002), sobretudo das crianças em idade escolar, assumindo muitas vezes, papeis vinculados ao acompanhamento dos netos na escola na ausência dos pais. Não obstante, a casa dos avós constitui um espaço para a construção, e a vivência das relações de amizade, cumplicidade, afeto e brincadeira (Barros, 1987).

Segundo Barranti (1985), a relação dos avós com os netos está associada a um papel caloroso e amigável, caracterizado pela gratuidade de atenção amor e carinho. A criança que convive e dialoga com os avós, aprende a valorizar a sua cultura e os valores, tendo em consideração o contínuo entre o processo de viver e envelhecer (Mendes, 2004).

Nas trocas geracionais, os avós atuais têm características diferentes das gerações anteriores, sendo os avós mais jovens tendencialmente mais divertidos e participativos. Os mais velhos, para além de se revelarem mais distantes, reclamam ajuda por parte dos netos (Pinazo, 1999).

Efetivamente não se pode escolher o momento em que se será avó, mas pode-se escolher o tipo de relação que se deseja estabelecer com os netos. Tal dependerá de fatores como a relevância do papel de avó/ avô no seu sentido de identidade, ou seja, a necessidade de se ser relembrado no futuro; a necessidade de dar continuidade geracional à família; o valor que atribui ao facto de lhe ser permitido participar na educação dos netos e pela importância atribuída ao reviver experiências de vida passadas (Ferland, 2006).

Tendo por base estes pressupostos Osuna (2006), considera a existência de quatro estilos de avós, que variam ao longo da vida e diferem entre si, segundo cada neto. São elas: (1) a permissiva – que se preocupam em fazer o que é moralmente correto com seus netos, mimando-os e sendo tolerantes; (2) a simbólica – preocupa-se em fazer o que é moralmente correto; (3) a individualista – vê nos netos o caminho para se manter ou converter em solitária; e (4) a tirana – coloca ênfase no aspeto da relação em ser avó-general.

Para Neugarten e Weinstein (1964), os avós podem ser categorizados como: (1) Formais: os que apresentam um comportamento rígido, tradicional e autoritário; (2) Brincalhão: estilo relaxado e não autoritário na relação com os netos, percepcionando-os como fonte de prazer; (3) Substituto: os que assumem responsabilidades e os cuidados diários dos netos: (4) Reservatório de sabedoria: prestam informação sobre as raízes familiares e são os guardiões da história familiar; e (5) Distante: raramente vêem os netos, eventualmente em ocasiões como natal, aniversários, casamentos e funerais.

A dialética relacional entre avós e netos para Ferland (2006), assume diferentes contornos à medida que o desenvolvimento se produz, pelo que é imperativo entender os diferentes tipos de relacionamento numa perspectiva desenvolvimental. Á medida que a criança cresce a sua relação com os avós evolui. Nos primeiros anos de vida da criança (0 aos 5 anos), o laço afetivo entre avós-netos manifesta-se através de ternura e de afeto que se estabelece sobretudo durante o jogo e atividades quotidianas. O amor e afeto podem assumir diversas formas, e deixar recordações muito variadas na memória do neto. Dos 5 aos 12 anos, em idade escolar, a criança gosta de contar coisas sobre si e sente-se interessante quando os avós lhe dedicam o tempo necessário para a ouvirem. Neste período os seus interesses expandem-se, a criança é curiosa em relação ao que passa ao seu redor e tem uma sede de conhecimentos que procura satisfazer, podendo esta, ser satisfeita pelos avós. Contudo, dos 12 aos 18 anos, no mundo da adolescência e construção da sua personalidade, há um distanciamento dos pais por uma emancipação afetiva e financeira. As prioridades são dirigidas aos amigos, tendo menos tempo para os avós, podendo no entanto o adolescente, nomear um dos avós como confidente.

Salienta-se o facto de nem sempre a RAN, se pautar pelo regozijo e harmonia. Se por um lado, a presença das avós pode ser percebida como prazerosa e educativa, por outro, pode ser considerado como conflituosa, já que implica confronto de poder e autoridade pelas diferenças na conceção das práticas educativas exercidas pelos pais (Falcão & Salomão, 2005).

Também para os avós, nem sempre constitui fonte de prazer. A inserção da mulher no mercado do trabalho, e subsequentes reestruturações familiares, transformaram o caráter voluntário e esporádico do papel de alguns avós, em atos diários que envolve esforço físico, emocional e económico de forma significativa (Miguel, Palomares, & Blanco, 2012). Nestas circunstâncias, os avós são impelidos a assumirem a responsabilidade de criar e educar os netos, seja auxiliando os filhos em tarefas domésticas, seja substituindo-os na tarefa de educar e cuidar dos netos (Triadó, Villar, Solé, Osuma & Celdrán, 2006).

Por conseguinte, apesar do relacionamento intergeracional, e o prazer no papel de avó poderem ajudar a melhorar a qualidade de vida do idoso, compensando a vida solitária parece que na forma de estabelecimento da RAN, o grau de responsabilização no seu desenvolvimento e educação, poderão influir no nível de satisfação para com o desempenho do papel de avós e subsequentemente na sua qualidade de vida (Emick & Hayslip, 1999 in Veleda, Neves, Baisch, , Santos, & Soares, 2006).

OBJETIVOS

O principal objetivo, consistiu na análise das repercussões da prestação de cuidados a netos na Qualidade de Vida dos avós, tendo-se definido como objetivos específicos, a compreensão da frequência dos cuidados prestados aos netos, sentimentos, perceções, satisfação e dificuldades decorrentes dos mesmos.

MÉTODO

  • Amostra

Trata-se de uma mostra de conveniência, recolhida em vários pontos da região Norte do país. É constituída por 300 sujeitos, divididos em dois grupos, Grupo de avós que prestam cuidados aos netos – avós cuidadores (AC) (n=150), e o grupo de avós não cuidadores (ANC) (n=150). Como critério de inclusão, foi defenido para ambos os grupos, a condição de ser avô, sendo que no grupo AC a prestação de cuidados a um dos netos era condição obrigatória. Nos ANC, estes não podiam prestar cuidados de forma sistemática a nenhum dos netos no momento da recolha da amostra.

Na caracterização da amostra, verifica-se em ambos os grupos um predomínio do género feminino (AC 84.7%; ANC 56.7%), e da condição de casado (AC= 74.7%; ANC= 68%), precedido dos viúvos (AC= 16%; ANC= 21.3). No que concerne à idade, os AC apresentam uma média de 64.78 anos (DP=7.02), oscilando entre os 39 e os 77 anos. Análogamente, os ANC apresentam uma média de idades de 62.61 anos (DP=6.57; Min:45 anos, Max: 83 anos).

As habilitações literárias, revelaram que no grupo AC o grau de escolaridade é igual ou inferior a 6 anos (65.3%) com uma média de 6.10 anos (DP=3.94), e no grupo ANC a maioria apresenta um grau igual ou inferior a 5 anos (62.3%) com uma média de 4.84 anos (DP=3.74). Salienta-se o nível baixo de analfabetismo (AC=8%; ANC=10%).

Quanto ao estatuto ocupacional, a amostra é maioritariamente reformada   (AC= 40.70%;ANC= 42%), seguindo-se a condição de doméstica no grupo AC (25.3%), e trabalhadores a tempo inteiro no grupo ANC (30%). Note-se que no grupo AC (76.7%) não possuem uma atividade profissional. A análise do rendimento mensal familiar, revelou que o grupo AC aufere melhores rendimentos, comparativamente com o grupo ANC, tendo em consideração a percentagem de rendimentos inferiores a 300€ (AC=10%; ANC=19.3%), e superiores a 1200€ (AC=26.7%; ANC=16.7%).

No que concerne à avaliação subjetiva do seu estado de saúde, verifica-se no grupo AC que a maior parte dos sujeitos consideram ter uma saúde “regular” (48%), precedida de “boa” (35.3%) e “excelente” (11.3%). Apenas um número muito reduzido (4.7%) consideram o seu estado de saúde “mau”. Ao nível da “perceção comparativa do estado de saúde com pessoas da mesma idade” a maioria avalia a sua saúde como similar à saúde dos indivíduos da sua idade (78%), sendo que (17.3%), consideram-na superior.

Quanto à caracterização dos netos alvos de cuidados, 56% são do género feminino, com idades compreendidas entre 1 e 13 anos, representando uma média de idades 7.49 (DP= 3.2). A linhagem dos netos é predominantemente materna (58%).

  • Instrumentos

Como meio de operacionalização do presente estudo, e coerentemente com os objetivos e natureza da investigação, foram elaborados e aplicados dois protocolos de investigação: Protocolo A, direcionado aos AC, e Protocolo B para os ANC. Ambos os protocolos eram constituídos comummente pelo Consentimento Informado, o questionário Sociodemográfico e o WHOQOL – Bref, sendo que, o protocolo A contemplava ainda o questionário “Avós/avôs Cuidadores”.

O Questionário Sóciodemográfico (Esperança & Leite, 2010), permitiu a caracterização dos avós, sendo uma mais-valia para a análise das variâncias sociais e demográficas.

O Questionário da Qualidade de Vida – WHOQOL- Bref (Vaz Serra, Canavarro, Simões, Pereira, Gameiro & Quartilho, 2006), teve como objetivo avaliar a QV Total (máximo de 100 pontos), agrupada em quatro dimensões individualizadas: meio ambiente, física, psicológica, relações sociais. É composto por 24 facetas da QV, sendo que, cada uma das facetas consta numa descrição de um estado, comportamento, capacidade, perceção ou experiência subjetiva, que compõem os 4 domínios descritos. É constituído por 26 itens, sendo que, 24 itens conduzem à avaliação de uma dimensão específica da QV e os restantes 2 itens representam questões gerais (uma referente à avaliação global da QV e outra à satisfação com a saúde) que não são contabilizadas nos domínios. As respostas ao questionário são obtidas através da escala do tipo Likert, em que o participante indica a sua concordância ou discordância, pontuada de 1 a 5. O resultado de cada domínio é calculado com base na média dos resultados obtidos nas questões que constituem o instrumento.

O Questionário Avós/Avôs Cuidadores (Esperança & Leite, 2010), corresponde à versão portuguesa do questionário “Abuelos Cuidadores” (Triadó, Celdrán, Conde, Montoro, Pinazo & Villar, 2008).Trata-se de um instrumento que permite descrever e caraterizar os cuidados prestados por avós/avôs aos seus netos, através de várias dimensões (e.g. tipo de cuidados, intensidade, circunstâncias, satisfação, dificuldades, estado de saúde, ajudas nos cuidados prestados, funcionamento familiar, e comportamentos problemáticos do neto cuidado).

 Procedimento:

Para operacionalização do presente estudo, tomou-se em linha de conta determinados procedimentos, nomeadamente, a tradução e retroversão do questionário Abuelos Cuidadores para a língua portuguesa, a aplicação dos instrumentos, e por fim o tratamento estatístico dos dados recolhidos.

O processo de tradução e retroversão foi realizado em duas fases. Primeiramente, a Tradução Inicial, consistiu na tradução direta da versão original espanhola do questionários Abuelos Cuidadores para a língua portuguesa. Na segunda fase, realizou-se a Retroversão, sendo a mesma efetuada por um tradutor oficial para a língua espanhola, sem conhecimento do questionário original e sem formação na área da saúde. Este processo determinou a compatibilidade e adequabilidade do instrumento à lingua portuguesa, mantendo-se por conseguinte, a integridade do instrumento inicial.

A recolha dos dados ocorreu em vários pontos da região Norte do país, sendo a entrega e recolha dos protocolos efetuada pela investigadora. Explicado os objetivos e obtido o consentimento informado, estes foram auto-preenchidos pelos avós, exceptuando os analfabetos os quais foram preenchidos pela investigadora após leitura em voz alta.

No tratamento dos dados recorreu-se ao software informático SPSS, versão 21, utilizando-se a estatística descritiva (M, DP, frequências) e inferencial paramétrica (teste t para amostras independentes) e correlacional (do tipo Pearson).

RESULTADOS

Caracterização da RAN

No que concerne à prestação de cuidados aos netos, verifica-se que esta ocupa em média 5.34 dias/semana (DP=1.37), num total médio de 24.37 horas/semana (DP=12.089). As “questões laborais dos filhos” (66.7%), surgem como principal causa da prestação semanal de cuidados aos netos, verificando-se que a maioria considera possuir uma relação de qualidade com os pais dos netos (“boa” – 47.3%; “excelente” -39.3%). Apenas uma ínfima parte (N=4) descrevem a relação como “má” ou “muito má”, e que provavelmente decorre/motiva a custódia legal dos netos.

A Tabela 1, sintetiza os resultados obtidos no questionário “Avó/avôs Cuidadores”, permitindo-nos analisar a média de frequência de respostas a um conjunto de itens que caracteriza, os cuidados prestados pelos AC aos netos, assim como, um conjunto de aspetos inerentes da prestação de cuidados.

Tabela 1[1]- Distribuição de frequências das dimensões do Questionário Avós/Avôs Cuidadores, desenvolvidas pelos AC (N=150).

Dimensões do Questionário Avó/Avôs Cuidadores

Media (1-4)

Tarefas de cuidados

2.26

Cuidados Básicos

2.21

Cuidados Instrumentais

2.28

Apoio Estudo

1.96

Atividades Ócio

2.47

Disciplina

2.38

Comportamentos problemáticos do neto

1.68

Ajuda nos cuidados

1.62

Sentimento de Responsabilidade

1.94

Relacionamento Pais do Neto

2.60

Satisfação nos cuidados

3.38

Dificuldades decorrentes nos cuidados

1.32

Funcionamento Familiar

2.54

Problemas Emocionais

1.99

Relativamente às Tarefas de Cuidados levadas a cabo pelos AC, as Atividades de Ócio (M=2.47) foram as que obtiveram valores mais elevados, seguindo-se a Disciplina (M=2.38); Cuidados Instrumentais (M=2.28), Cuidados Básicos (M=2.21), e finalmente o Apoio ao Estudo (M=1.96).

Nas Atividades de Ócio, o maior destaque está associado a atividades como: “passearem juntos” (M=3.35), assim como “verem televisão” (M=2.91) (70%). Paralelamente, as menos executadas pelos AC, prendem-se essencialmente com tarefas de “pintar/desenhar juntos” (M=1.75).

Ao nível dos Cuidados Básicos, constatamos que a tarefa mais executada pelos AC é “dar-lhe de comer” (M=2.68) (66%), e as menos executadas estão associadas a “dar-lhe banho” (M=1.93), e “acordá-lo de manhã” (M=1.97).

Quanto aos Cuidados Instrumentais, as tarefas incidem sobretudo na preparação da comida (M=2.88), e vigilância (M=2.64), por oposição a “lavar e passar roupa” (M=1.97) e “levá-lo ao médico” (M=1.82).

Em termos de Disciplina, verifica-se que os AC tendem a não castigar (M=1.73), nem dar palmadas (M=1.57), apesar de exercerem ações de repreensão (M=2.41). Contudo, são os elogios (M=3.29), e as recompensas (M=2.89), os mais frequentes na ação disciplinar.

No Apoio no Estudo, os AC tendem essencialmente a controlar a execução dos trabalhos de casa (M=2.07), com uma menor implicação ao nível de “ajuda a fazer os TPC” (M=1.85).

Relativamente à caraterização dos Comportamentos Problemáticos do neto alvo de cuidados, verifica-se uma média baixa (M=1.68) da ocorrência dos mesmos, encontrando-se associados à sua irrequietude (“muito irrequietos” (M=2.37). Salienta-se a baixa ocorrência de problemas mais disruptivos, tais como “Insulta ou diz palavrões” (M= 1.16); “é agressivo” (M=1.20).

Analogamente, o nível de Ajuda nos Cuidados, também é baixa (M=1.62), e quando existe, estas provêm essencialmente da “ajuda do parceiro” (M=2.62) e de “outros familiares com que convivem” (M=2.58), sendo escassos os casos em que recebem “assistência legal/ jurídica” (0.7%); “ajuda do estado ou outras instituições” (7.3%); ou “ajuda económica ou material dos meus filhos” (28.7%).

No que concerne ao Sentimento de Responsabilidade, verifica-se um resultado moderado (M=1.94), constatando-se que grande parte dos AC (M=2.45), se considerarem na “obrigação de cuidar do neto(a)”. Para além disso, 95.3%, nunca se sentiram “incomodados/as quando cuido do meu neto(a) em lugares públicos” (), nem consideram ser “uma desonra para a minha família ter de cuidar do meu neto(a)” (98.7%).

O Relacionamento com os Pais do neto é considerado como bom (M=2.60), sentindo-se apoiados pelos mesmos na prestação de cuidados aos netos (M=3.17), falando com os mesmos acerca de assuntos que afetam o neto (M=2.99), orientando-os quanto forma de tratamento (M=2.29). Por conseguinte, o nível de conflituosidade é relativamente baixo (M=1.94), comparativamente às outras dimensões.

O nível de Satisfação nos Cuidados é elevado (M=3.38), considerando que “o neto(a) é a alegria da minha casa” (M=3.51), e de aferirem que se “deixasse de tomar conta do neto(a) sentiriam muito” (M=3.53).

Quanto às Dificuldades Decorrentes dos Cuidados, verifica-se que os AC não apresentam grandes dificuldades (M=1.32). Salienta-se o facto de a maioria ter classificado como “nunca” as afirmações: “o dia em que deixar de cuidar do neto(a) será uma libertação” (96%); “cuidar do meu neto/a tem criado problemas de espaço na minha casa” (97.3%).

Quanto ao Funcionamento Familiar, estes consideram possuir um bom funcionamento (M=2.54), coligado à existência de confiança uns nos outros (M=3.15), e há existência de sentimentos negativos na família (M=1.53).

Relativamente a Problemas Emocionais, os AC (M=1.99) revelam uma avaliação bastante positiva apesar da média, isto, tendo em consideração que (62%) nunca se sentiram sozinhos; (66.7%) nunca consideraram “que a vida não vale a pena ser vivida”, (46.7%) não se consideram menos úteis à medida que envelhecem, e (59.3%) consideram por vezes que “à medida que envelhece, as coisas são melhores do que se esperava”.

 

 

Estudo Correlacional entre As dimensões do Questionário Avós Cuidadores e outras Variáveis

A Tabela 2, apresenta-nos o estudo correlacional entre as várias dimensões do questionário “Avós/Avôs Cuidadores”

Tabela 2- Estudo Correlacional do tipo Pearson, entre as dimensões do Questionário Avós/Avôs Cuidadores.

Dimensões do questionário Avós/ Avôs Cuidadores

CB CI AE AO DSP KN AJC STR RPN STF DFC

PS

CB[2] 1

CI[3] .682*** 1    
AE[4] .061 .296*** 1    
AO[5] .312*** .336*** .395*** 1    
DSP[6] .343*** .470*** .211** .340*** 1    
KN[7] .186* .170* -.006 .120 .267** 1    
AJC[8] .140 .106 .055 .084 .184* -.036 1    
STR[9] .218** .298*** .100 .074 .280** -.038 .416 1    
RPN[10] .207* .123 .225** .156 .174* -.002 .300*** .362*** 1  
STF[11] .130 .128 .012 .391*** .219** -.139 .056 .096 -.099 1  
DFC[12] -.041 .056 -.072 -.196* -.015 .329*** -.035 -.003 -.197* -.430*** 1  
PS[13] .142 .167* -.118 -.104 .098 .360** -.142 -.088 -.286*** .034 .381*** 1
FM[14] .244** .260** .045 .243** .448*** -.030 .160 .187* -.007 .498*** -.141 -.090

* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001

Os Cuidados Básicos, correlacionam-se de modo positivo, fraco e significativo com um aumento: das Atividades de Ócio (r=.312; p<.001), da Disciplina (r=.343; p<.001), os Comportamentos Problemáticos dos netos (r=.186; p=.023), Sentimento de Responsabilidade (r=.218; p=.003), Relacionamento com os pais do neto (r=.207; p<.011) e com o Funcionamento Familiar. Ressaltando uma correlação positiva, moderada e significativa com o aumento dos Cuidados Instrumentais (r=.682; p<.001).

De igual modo, os Cuidados Instrumentais correlacionam-se de modo positivo, fraco e significativo com o aumento: do Apoio no Estudo (r=.296; p<.001), das Atividades de Ócio (r=.336; p<.001), da Disciplina (r=.470; p<.001), Sentimento de Responsabilidade (r=.298; p<.001), Problemas de Saúde (r=.167; p=.041) e Funcionamento Familiar (r=.260; p=.002). Ou seja, quanto mais evidentes, e necessários os Cuidados Instrumentais, maior é a tendência para aumentar os cuidados ao nível do Apoio no Estudo, assim como, as Atividades de Ócio, Disciplina, o Sentimento de Responsabilidade e funcionamento familiar.

Em termos de Apoio no Estudo, verifica-se a existência de uma correlação positiva, fraca e significativa com as necessidades de apoio em termos de Disciplina (r=.211; p=.009), Atividades Ócio (r=.395; p<.001) e Relacionamento com os pais do neto (r=.225; p=.006).

Por outro lado, as Atividades de Ócio, levam a uma maior: Satisfação nos cuidados prestados (r=.391; p<.001), exigência em termos de Disciplina (r=.340; p<.001), e Funcionamento Familiar (r=.243; p=.003), sendo estas relações estatisticamente significativas. Por sua vez o aumento das Atividades de Ócio diminui de modo significativo as dificuldades decorrentes dos cuidados prestados (r=-.191; p=.016).

Ao nível da Disciplina, estão patentes correlações positivas, fracas e significativas, à medida que esta aumenta, tendem a aumentar os Comportamento problemático dos netos (r=.267; p=.001), bem como, a Ajuda nos Cuidados (r=.184; p=.024), o Sentimento de Responsabilidade         (r=.280; p<.001), o Relacionamento com os pais do neto (r=.174; p=.034) , a Satisfação nos cuidados prestados (r=.219; p=.007) e o Funcionamento Familiar (r=.448; p<.001).

Os Comportamento Problemático do neto, revelou uma correlação positiva, fraca e significativa com: as dificuldades nos cuidados prestados            (r=.329; p<.001), e problemas de saúde (r=.360; p<.001). Ou seja, os comportamentos problemáticos, tendem a aumentar as dificuldades nos cuidados, e ao nível dos problemas de saúde nos AC.

No que concerne à Ajuda nos cuidados, esta correlaciona-se de forma positiva, fraca e significativa, à medida que esta aumenta, aumenta paralelamente o Sentimento de Responsabilidade (r=.416; p<.001), o Relacionamento com os pais do neto (r=.300; p<.001) e o Funcionamento Familiar (r=.161; p=.046). O Aumento da Responsabilidade, leva ao aumento do Relacionamento Familiar (r=.362; p<.001) e Funcionamento Familiar (r=.187; p=.022), sendo igualmente pautadas com diferenças significativas.

O facto dos AC evidenciarem um Relacionamento positivo com os pais do neto alvo de cuidados, reflete-se numa associação negativa, fraca e significativa a diminuição das Dificuldades nos Cuidados decorrentes dos cuidados prestados pelos AC aos netos (r=-.197; p=.066), e diminuição dos problemas de saúde dos AC (r=-.286; p<.001).

A Satisfação com os Cuidados prestados, correlaciona-se de forma negativa, fraca e significativa com a diminuição das Dificuldades nos Cuidados            (r=-.430; p<.001) e de forma positiva, fraca e significativa com o aumento do Funcionamento Familiar (r=.498; p<.001).

As Dificuldades decorrentes dos cuidados, contribuem para a diminuição do funcionamento familiar (r=-.141; p=.040), por oposição, ao aumento de Problemas de Saúde dos AC (r=.381; p<.001), de modo significativo.

A tabela seguinte, permite-nos um estudo correlacional entre as várias dimensões avaliadas pelos questionário “Avós/Avôs Cuidadores” e as idades dos avós e netos.

Tabela 3 – Correlação linear de Pearson entre a idade dos AC (N=150) e dos netos com as dimensões do Questionário Avós/Avôs Cuidadores.

Avós/Avôs Cuidadores

 

Idade

 

 

Avós

Netos

 

Dimensões  do Questionário

Avós/ Avôs Cuidadores

Tarefas de Cuidados

 

Cuidados Básicos

-.335***

-.274**
Cuidados Instrumentais

-.354***

-.003
Apoio Estudo

.027

.452***
Atividades Ócio

-.016

.012
Disciplina

-.088

.089
Comportamentos problemáticos do Neto

-.018

-.052
Ajuda nos cuidados

-.146

.003
Sentimento de responsabilidade

-.052

.043
Relacionamento com Pais do Neto

.149

.020
Satisfação com os cuidados

-.045

-.204*
Dificuldades nos cuidados

-.063

.097
Funcionamento familiar

-.160

-.215**
Problemas de Saúde

-.101

.018
Problemas emocionais

-.086

.072

* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001

A análise da Tabela 3 permite-nos constatar que são poucas as dimensões que apresentam correlações estatisticamente significativas entre as várias dimensões do questionário, e a idade dos AC e respetivos netos.

Verificam-se correlações negativas, fracas e estatisticamente significativas com a idade dos AC ao nível dos Cuidados Básicos (r=-.335; p<.001), Cuidados Instrumentais (r=-.354; p<.001). Com o aumento da idade dos AC, há uma diminuição destes cuidados por parte dos avós. Analogamente, o mesmo é corroborado em relação à idade dos netos ao nível dos Cuidados Básicos pela sua diminuição (r=-.274; p=.001), paralelamente à diminuição da Satisfação nos Cuidados (r=-.204; p=.012), e diminuição do Funcionamento Familiar      (r=-.215; p=.008). Por sua vez, o aumento da idade dos netos, revela uma correlação positiva, fraca e significativa com o Apoio ao Estudo               (r=.452; p<.001).

Estudo comparativo entre os AC e ANC no que concerne aos resultados obtidos no WHODOL-Bref

Na caraterização da QV dos grupos, AC e ANC (Tabela 4), os resultados encontrados revelam diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos.

Tabela 4- Teste t Student para amostras independentes, AC e ANC, relativamente ao WHOQOL – Bref e respetivas dimensões.

WHOQOL – Bref

Tipo de Avó/Avô

 

 

 

AC, N= 150

M (DP)

ANC, N= 150

M (DP)

 

 

 

t (298)

 

P

QV Total

 

89.05 (10.50)

84.03 (14.80)

 

3.39

**

Dimensões Relações Sociais

 

58.56 (19.64)

49.28 (22.31)

 

3.82

***

Psicológica

 

60.33 (9.93)

57.39 (12,35)

 

2.28

*

Física

 

66.33 (13.96)

60.45 (17.07)

 

3.27

**

Meio Ambiente

 

56.13 (11.52)

52.35 (14.45)

 

2.50

*

* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001

Ao nível da escala de QV Total, os resultados médios da escala revelam que os AC (M= 89.05; DP= 10.50) apresentam uma QV Total superior, aos ANC ANC (M= 84.03; DP= 14.80), sendo estas diferenças estatisticamente significativas (t (298)=3.39, p=.001). O mesmo se verifica relativamente às diferentes dimensões da QV: Relações Sociais (AC M= 58.56; DP=19.64; ANC M= 49.28; DP= 22.31); Psicológica (AC M= 60.33; DP= 9.98; ANC M= 57.39; DP=12.35); Física (AC M= 66.33; DP= 13.96; ANC M= 60.45; DP=17.07); e Meio Ambiente (AC M= 56.13; DP= 11.52; ANC M= 52.35; DP=14.45). À semelhança da QV Total,também todas as dimensões apresentam diferenças estatísticamente significativas: Relações Sociais (t (298)=3.82, p<.001); Psicológica (t (298)=2.28, p=.024); Física (t (298)= 3.27, p=.001); e Meio Ambiente (t (298)=2.50, p=.013)

A Tabela 5, apresenta-nos os resultados obtidos no estudo correlacional, entre as dimensões dos cuidados prestados (avós/avôs cuidadores) e a qualidade de vida (Whoqol-Bref) dos AC.

Tabela 5- Estudo Correlacional de Pearson, entre as dimensões do Questionário Avós/Avôs Cuidadores e a escala WHOQOL – Bref, no grupo AC.

Avós/Avôs Cuidadores

WHOQOL – Bref

Total

Dimensões

Amb. Física Psic. Social

Dimensões Questionário Avôs/Avós Cuidadores

Tarefas de Cuidados:          

 

Cuidados Básicos .040 -.043 .040 .079 .072
Cuidados Instrumentais .066 .026 .096 .030 .046
Apoio Estudo .243** .289*** .106 .222*** .172*
Atividades Ócio .466*** .526*** .236** .312*** .395***
Disciplina .037 .066 -.094 .052 .175*
Comportamento problemático do Neto -.087 -.073 -.075 -.093 .014
Ajuda nos cuidados .019 -.013 -.012 .101 .006
Sentimento de Responsabilidade .051 .056 .058 .039 -.023
Relacionamento com Pais do Neto .165* .049 .244** .122 .040
Satisfação com os cuidados .427*** .392*** .193* .342*** .502***
Dificuldades nos cuidados -.476*** -.357*** -.326*** -.460*** -.403***
Funcionamento familiar .360*** .327*** .237** .196* .405**
Problemas de Saúde -.329*** -.099 -.502*** -.183* .142
Problemas emocionais -.377*** -.193* -.405*** -.336*** -.197*

* p<0.05, ** p<0.01, *** p<0.001

Relativamente ás Tarefas de Cuidados, levadas a cabo pelos AC aos seus netos, constatamos correlações positivas, fracas e estatísticamente significativas entre o Apoio ao Estudo ao nível da QV Total (r=.243; p=.003), bem como nas dimensões: Ambiente  (r=.289; p<.000), Psicológica (r=.222; p=.006) e Relações Sociais (r=.172; p=.035). As Atividades de Ócio, também se correlacionam de forma fraca a moderada, positiva e estatísticamente significativa com a QV Total (r=.466; p<.001); dimensão Física (r=.236; p=.004), Psicológica (r=.312; p<.001); e nas Relações Sociais (r=.395; p<.001). Destacando-se ainda, uma correlação positiva e moderada na dimensão Meio Ambiente (r =.526, p<.001).

O Relacionamento com os pais dos netos, revelam uma correlação positiva, fraca e significativa com a QV Total (r=.165; p=.044), e na dimensão Física (r=.244; p<.001). Quanto melhor tende a ser o relacionamento com os pais dos netos, melhor tende a ser a QV dos AC.

Na Satisfação decorrente dos cuidados prestados, está patente uma correlação positiva, fraca igualmente significativa ao nível global, QV Total (r=.427; p<.001), e na dimensão Física (r=.342; p<.001) e Meio Ambiente (r=.392; p<.001). Destacando-se uma correlação positiva e moderada na dimensão das Relações Sociais (r=.502; p<.001).

Quanto às Dificuldades inerentes, depara-se com diferenças significativas nos cuidados prestados aos netos. Pois evidencia-se uma correlação negativa e fraca na QV Total (r=-.476; p<.001), e respetivas dimensões: Meio Ambiente (r=-.357; p<.001), Física (r=-.326; p<.001), Psicológica (r=-.460; p<.001) e Relações Sociais (r=-.403; p<.001), igualmente significativas. O registo torna evidente que quanto menor são as dificuldades nos cuidados, maior tende a ser a QV dos AC.

Ao nível do Funcionamento Familiar, verificamos uma correlação positiva, fraca e significativa, de forma análoga em toda a escala, ao nível global QV Total (r=.360; p<.001), ambiente (r=.327; p<.001), física (r=.237; p<.001), psicológica (r=.196; p=.016) e social (r=.405; p<.001), sendo todas significativas.

Relativamente aos Problemas de Saúde, a tendência revela uma correlação negativa, fraca e significativa, relativamente à QV Total (r=-.329; p<.001),  e nível Físico (r=-.502; p<.001). De forma negativa e moderada ao nível Psicológico (r=-.183; p=.025). Quanto menores os problemas de saúde, maior tende a ser a QV dos AC.

Por sua vez, ao nível de Problemas Emocionais vivenciados pelos AC, sobressai uma correlação negativa, fraca e significativa, face à QV Total       (r=-.377; p<.001), e respetivas dimensões associadas:  Meio Ambiente           (r=-.193; p=.018), Física (r=-.405; p<.001), Psicológica (r=-.336; p<.001) e Relações Sociais (r=-.197; p=.016). A QV tende a aumentar face à diminuição dos problemas emocionais.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O objetivo do presente estudo, incidiu, na compreensão das atribuições e frequências dos cuidados prestados aos netos, sentimentos e perceções (satisfação e dificuldades) inerentes à prestação de cuidados, no sentido de perceber o impacto que os mesmos têm na QV dos AC. Neste contexto, realizou-se uma análise comparativa com um grupo de ANC, ao nível da QV.

De acordo com Araújo e Dias (2002), as atividades realizadas entre avós e netos, depende de um conjunto de variáveis, das quais se destaca a idade e género dos avós e netos, a linhagem familiar, a situação profissional e as relações familiares.

Iniciemos a discussão, caraterizando sumariamente os AC, comparativamente aos ANC. Trata-se de uma população relativamente jovem tendo em consideração a esperança média de vida atual; feminina; instruída, sendo ínfimos os casos de analfabetismo. Vários possuem inclusive o grau de licenciatura. Para além disso, os rendimentos médios auferidos indicam-nos uma situação económica razoável, o que por sua vez poderá eventualmente justificar o nível de inatividade profissional, o que lhes permite uma maior disponibilidade efetiva para se dedicarem à prestação de cuidados. Aliás parece-nos ser a situação profissional o grande motivador da prestação de cuidados aos netos, advinda da disponibilidade dos avós e da indisponibilidade parental motivada pelas questões laborais, transformando os avós num recurso imprescindível na conciliação da vida familiar e profissional (Pérez, 2004; Miguel et al, 2012).

A sobre saliência da linhagem materna na nossa amostra, comparativamente à paterna, vai de encontro à literatura (e.g. Triadó & Villar, 2005), que revela uma tendência preferencial direcionada para os avós maternos (Castañeda, Sánchez, Sánchez & Blanc, 2004), motivado pela existência de um laço privilegiado entre mãe e filha, facilitando o relacionamento dos netos com os avós maternos (Gauthier, 2002). Dias e Silva (2003), referem que as avós maternas são consideradas como figuras mais importantes e menos distantes que as avós paternas. Para além disso, os avós maternos parecem mais envolvidos na educação dos netos quando comparados com os avós paternos (Van Rast, Verscueren & Marcoen,1995), o que explica a intervenção dos AC nas várias esferas da vida dos netos, desde os cuidados básicos, e instrumentais, ao apoio ao estudo e mesmo ao nível da disciplina.

É claro que a qualidade da relação estabelecida entre os avós e os pais (geração intermédia), influiu nos resultados obtidos, tendo em consideração que os mesmos funcionam como mediadores do contato nesta relação entre avós e netos (RAN), podendo inibi-la ou facilita-la (Goodman, 2007), uma vez que, a qualidade da RAN está associada às relações bem sucedidas com a geração intermédia (Stella, 2010), o que se verifica na nossa amostra.

A idade dos avós e dos netos influenciam os níveis de cuidados, tendo em consideração que a mesma determina a capacidade dos primeiros em prestar cuidados, e as necessidades de cuidados dos segundos, em consonância com a fase de desenvolvimento em que se encontram. De acordo com o estudo desenvolvido por Triadó, Villar, Solé, Osuna e Celdrán (2006), à medida que ambos avançam na idade, diminui o nível de prestação de cuidados. Por conseguinte, a disparidade de faixas etárias dos netos da nossa amostra (1 aos 13 anos), justifica a variabilidade de ações de cuidado levada a cabo pelos avós, dos quais se destacam ao nível dos cuidados básicos “dar de comer”; dos cuidados instrumentais “preparar a comida” e “vigiá-lo”; no apoio ao estudo o “controlo dos TPC”; nas atividades de ócio, o “passear” e “ver TV”, e na disciplina, ações muito mais positivas (e.g. elogios e recompensas), comparativamente às coercivas, sendo típico nos avós. Recorde-se que a isenção de responsabilidades parentais (Ferland, 2006), lhes permite assumir uma postura mais descontraída e prazerosa para com os netos, o que por sua vez se verifica nos elevados níveis de satisfação decorrente dos cuidados prestados e do funcionamento familiar. O baixo nível de comportamentos problemáticos por parte dos netos, também contribuirá para esta satisfação, assim como, os níveis baixos de dificuldades associados á prestação de cuidados, evidenciados no estudo correlacional entre as várias dimensões avaliadas.

O estudo correlacional entre as dimensões do questionário “Avós/avôs Cuidadores”, e a idade dos netos e dos avós, demonstra-nos que á medida que aumenta a idade dos avós, diminui a prestação de cuidados básicos e instrumentais. Estes resultados vão de encontro á literatura, que nos refere que os avós mais novos apresentam uma maior proximidade emocional, aumentando a probabilidade de serem mais ativos e comprometidos na relação (Triadó, 2000). No que concerne á idade dos netos, verificam-se correlações estatisticamente significativas e negativas com os cuidados básicos, satisfação para com os cuidados e funcionamento familiar, sendo perfeitamente compreensível, tendo em consideração que a relação avós netos assume contornos diferentes consoante as necessidades desenvolvimentais destes (Silverstein e Marenco, 2001). Os netos pré adolescentes parecem ser mais fáceis de cuidar e de conviver com os avós, enquanto que, os netos mais velhos tendem a desenvolver outros laços, nomeadamente com os seus grupos de pares (Bales, 2002). Note-se que, á medida que a idade avança, os avós passam a ser percepcionados como distantes e menos como guardiões, guias familiares e mediadores de conflitos (Triadó, Martinez & Villar, 2000).

No que concerne á QV, verifica-se que os AC apresentam níveis mais elevados e estatisticamente significativos de QV Total e em todas as suas dimensões (Física, Psicológica, Relações Sociais e Meio Ambiente), comparativamente aos ANC. Tendo em conta estes resultados, podemos considerar que a prestação de cuidados a netos promove a qualidade de vida dos avós. Tais ilações são suportadas pelo elevado número de correlações estatisticamente significativas entre as várias dimensões da QV e do questionário “Avós cuidadores”.

Uma análise detalhada das mesmas, demonstra-nos que o apoio ao estudo promove a QV Total, permitindo aos avós contribuir para o desempenho escolar e formação do carácter da criança, bem como, com o seu desenvolvimento pessoal (Harwood, Hewstone, & Raman, 2006). Aliás, o apoio ao estudo também surge como promotor das dimensões Meio Ambiente, Psicológica e Relações sociais, provavelmente motivado pelo aumento do sentimento de auto-eficácia.

O mesmo se verifica com as atividades de ócio, correlacionando-se de forma positiva, estatisticamente significativa com todas as dimensões da QV. Este efeito positivo, provavelmente advém do facto de as mesmas constituírem um meio privilegiado de contacto com os netos, consolidando os laços de afetividade. Para além disso, permite-lhes simultaneamente dissipar sentimentos de solidão frequentemente associados á terceira idade (Emick & Hayslip, 1999 cit in Veleda, Neves, Baisch, Vaz, Santos, & Soares, 2006).

A satisfação para com os cuidados, assim como, o bom funcionamento familiar, também se correlacionam de forma positiva e estatisticamente significativa com todas as dimensões da QV. Tal seria de esperar, tendo em consideração o elevado nível de satisfação com os cuidados; a qualidade da relação entre os avós e a geração intermédia, permitindo-lhes desempenhar um papel ativo na vida dos netos; o baixo nível de dificuldades na prestação de cuidados, assim como, uma valorização positiva do seu estado de saúde em geral (físico e psicológico). Estes resultados, explicam inclusive a existência de correlações negativas e estatisticamente significativas entre algumas dimensões da QV e as dificuldades nos cuidados; problemas de saúde; e problemas emocionais.

CONCLUSÕES

A prestação de cuidados a netos parece desempenhar um papel positivo na QV dos avós cuidadores, proporciona-lhes um sentimento de utilidade e continuidade.

 

Bibliografia

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Bales, S. (2002). The relation between the grandparent-grandchild bond and children views of them selves and grandparents. Dissertação de Doutoramento: Indiana University.

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[1] A presente tabela encontra-se mais pormenorizada no Apêndice A

[2] Cuidados Básicos;

[3] Cuidados Instrumentais;

[4] Apoio ao Estudo;

[5] Atividades de Ócio:

[6] Disciplina;

[7] Comportamentos problemáticos do neto;

[8] Ajuda nos cuidados prestados;

[9] Sentimento de Responsabilidade;

[10] Relação com pais do neto;

[11] Satisfação decorrente dos cuidados prestados ao neto;

[12] Dificuldade decorrente dos cuidados prestados ao neto;

[13] Problemas de saúde

[14] Funcionamento Familiar

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